O Berço de Ouro — A irmã sagrada de Machu Picchu

 

 

Informações rápidas

  
nome quéchuaChuqi K'iraw (Berço de Ouro)
LocalizaçãoProvíncia de La Convención, Cusco
Altitude3.050 metros acima do nível do mar.
Área1.800 hectares
Escavado30%
Visitantes por diaaproximadamente 30 pessoas
Período de construçãoséculo XV (reinado de Pachacútec)
AcessoSomente a pé (mínimo de 2 dias de caminhada)

 

Introdução

Choquequirao ergue-se em uma crista montanhosa a 3.050 metros acima do nível do mar, com vistas para o cânion de Apurímac de um lado e para os picos nevados da cordilheira de Vilcabamba do outro. É a maior cidadela inca depois de Machu Picchu, contudo, recebe menos visitantes em um ano inteiro do que sua cidadela irmã recebe em um único dia.

O nome vem do quéchua Chuqi K'iraw, que significa Berço de Ouro. Foi construído durante o reinado de Pachacútec, no século XV, simultaneamente a Machu Picchu, e provavelmente serviu como centro religioso, administrativo e agrícola para a elite inca.

O que torna Choquequirao único não é apenas seu tamanho ou seu isolamento. É o fato de que 70% do sítio arqueológico permanecem inexplorados, cobertos pela vegetação da floresta nublada. Cada visita é um lembrete de que ainda há segredos a serem descobertos.

 

História

Construção (século XV) Choquequirao foi construída durante a expansão do Império Inca sob o comando de Pachacútec e Inca Yupanqui. Arqueólogos acreditam que funcionava como um centro cerimonial e posto de controle entre as terras altas e a selva. Sua localização estratégica permitia monitorar o desfiladeiro de Apurímac e as rotas comerciais em direção às terras baixas.

A Resistência (1536–1572) Após a conquista espanhola de Cusco, Choquequirao ganhou nova importância. Manco Inca e seus sucessores a utilizaram como parte da rede de refúgios na cordilheira de Vilcabamba. Alguns historiadores acreditam que foi um dos últimos lugares habitados antes da retirada definitiva dos Incas para Vilcabamba.

Os Anos Esquecidos (1572–1909) Quando os espanhóis conquistaram Vilcabamba em 1572, Choquequirao foi abandonada. A selva a cobriu por mais de 300 anos. Houve expedições esporádicas nos séculos XVIII e XIX, mas nenhuma conseguiu estudá-la sistematicamente.

A Redescoberta (1909) Hiram Bingham, o explorador americano que dois anos depois tornaria Machu Picchu famosa, visitou Choquequirao em 1909. Ele documentou as ruínas e tirou fotografias, mas o difícil acesso impediu que o sítio arqueológico alcançasse a mesma fama que sua irmã.

Os dias atuais As escavações começaram a sério na década de 1990 e continuam até hoje. Apenas 30% do sítio foram descobertos. O governo peruano propôs a construção de um teleférico para facilitar o acesso, mas o projeto está paralisado há décadas. Por enquanto, Choquequirao permanece domínio daqueles dispostos a caminhar.

 

Setores do Complexo Arqueológico

  1. Haucaypata (Praça Principal) O centro cerimonial e administrativo de Choquequirao. Uma grande esplanada rodeada por edifícios de pedra finamente esculpidos. As cerimônias mais importantes eram realizadas aqui e as decisões que afetavam toda a região eram tomadas aqui. A vista da praça abrange todo o desfiladeiro do Apurímac.
  2. Templo Principal e Ushnu O edifício religioso mais importante do complexo. O ushnu é uma plataforma cerimonial orientada para pontos astronômicos específicos. Os sacerdotes incas realizavam rituais relacionados ao sol, à lua e às estrelas neste local. A qualidade do trabalho em pedra nesta área é comparável à dos templos mais requintados de Cusco.
  3. Sistema de Terraços Cerimoniais Choquequirao possui um dos mais extensos sistemas de terraços do Império Inca. Eles não eram exclusivamente agrícolas. Muitos terraços tinham uma função cerimonial, sendo utilizados para o cultivo de produtos sagrados como coca e milho destinados a oferendas.
  4. Setor de Lhamas O elemento mais característico de Choquequirao são os 24 terraços decorados com figuras de lhamas e seus filhotes, esculpidas em pedras brancas incrustadas em muros de pedra escura. Cada lhama mede aproximadamente 4 metros de comprimento.

 

Essa arte não existe em nenhum outro sítio inca conhecido. Os arqueólogos debatem seu significado: as figuras podem representar a importância das lhamas na economia inca, constelações andinas ou uma homenagem aos animais sagrados que transportavam oferendas entre as cidades do império.

Para chegar a este setor, você precisa caminhar de 30 a 40 minutos a partir da praça principal. Vale cada passo.

  1. Setor dos Sacerdotes Um conjunto de estruturas residenciais de alta qualidade localizadas na parte superior do complexo. Provavelmente abrigava os sacerdotes e administradores que dirigiam as cerimônias e controlavam a produção agrícola. Os nichos nas paredes sugerem que objetos cerimoniais e oferendas eram armazenados ali.
  2. Setor Pikiwasi Uma área residencial localizada na encosta norte. Estruturas mais simples sugerem que os trabalhadores e artesãos que mantinham o complexo em funcionamento viviam ali. A área ainda está parcialmente coberta por vegetação.
  3. O Ponto de Vista O ponto mais alto acessível do complexo. Uma vista panorâmica de 360 graus que abrange o cânion do Apurímac, os picos nevados da cordilheira de Vilcabamba e, em dias claros, até mesmo o pico nevado do Salkantay. Este é o melhor lugar para avistar condores andinos, especialmente em manhãs ensolaradas.

 

As Lhamas de Pedra

Eles merecem uma seção própria porque são únicos no mundo.

Na encosta leste de Choquequirao, 24 terraços descem pela encosta da montanha. Nos muros de contenção, os incas incrustaram pedras brancas formando figuras de lhamas adultas e seus filhotes. O contraste entre as pedras brancas e a parede escura torna as figuras visíveis do outro lado do cânion.

Cada lhama mede aproximadamente 4 metros de comprimento e 3 metros de altura. Algumas estão voltadas para cima, outras para baixo. Há lhamas adultas seguidas de seus filhotes. O nível de detalhe inclui pernas, orelhas, caudas e, em alguns casos, até expressões faciais.

Nada semelhante existe em Machu Picchu, Ollantaytambo, Pisac ou qualquer outro sítio inca. Os arqueólogos têm várias teorias:

  • Representação econômica: As lhamas eram fundamentais para o império. Elas transportavam cargas, forneciam lã e carne e eram usadas em sacrifícios. Os terraços poderiam ser uma homenagem a esses animais sagrados.
  • Mapa celeste: Na cosmologia andina, existe uma constelação chamada Yacana, a lhama celeste. As figuras podem representar essa constelação e sua relação com os ciclos agrícolas.
  • Marcador territorial: As lhamas poderiam indicar que essas terras pertenciam a uma panaca (linhagem real) específica ou que a produção agrícola se destinava a fins específicos.
  • Mensagem visual: As figuras são visíveis à distância. Elas poderiam ter servido para comunicar algo aos viajantes que se aproximavam pelo cânion.

 

Independentemente do seu significado original, hoje são o símbolo de Choquequirao e a razão pela qual muitas pessoas caminham dois dias para chegar lá.

 

Choquequirao vs Machu Picchu

AspectoChoquequiraoMachu Picchu
Visitantes por dia~30~5,000
Visitantes por ano~10,000~1,500,000
Área total1.800 hectares325 hectares
Percentagem escavada30%100%
AcessoApenas trekking (mínimo de 2 dias)Ônibus, trem ou caminhada
Tempo permitidoSem limite4 horas no máximo
Taxa de entradaS/. 60 (~$16 USD)$50–70 USD
Reserva antecipadaNão é necessárioObrigatório (com meses de antecedência)
InfraestruturaBásico (acampamentos)Desenvolvido (hotéis, restaurantes)
lhamas de pedraSim (único)Não
Sensação geralExploradorTurista
MultidõesNuncaSempre
Fotos sem pessoasGarantidoQuase impossível

 

Como chegar lá

Não há estrada. Não há teleférico. Não há helicóptero turístico. A única maneira de chegar a Choquequirao é a pé.

Rota clássica a partir de Cachora (a mais comum)

  • Início: Vila de Cachora (2.900 m)
  • Distância: 30 km (ida)
  • Duração: 2 dias de trekking
  • Variação de altitude: -1.500 m (Dia 1) / +1.500 m (Dia 2)
  • Dificuldade: Moderada a Alta

No primeiro dia, você desce até o cânion do Apurímac. No segundo dia, atravessa o rio e sobe até as ruínas. A maioria dos excursionistas faz o circuito completo em 4 dias (2 dias de ida, 2 dias de volta).

Rota a partir de Vilcabamba (para expedições mais longas)

  • Início: Huancacalle ou Yanama
  • Distância: Variável dependendo da rota
  • Duração: Parte de expedições de 6 a 10 dias
  • Variação de altitude: Atravessa o Passo de San Juan (4.650 m)
  • Dificuldade: Alta

Essa rota chega a Choquequirao pelo norte, atravessando a cordilheira de Vilcabamba. É menos comum e mais exigente, mas permite combinar Choquequirao com Vilcabamba e/ou Machu Picchu.

 

Melhor época para visitar

Estação seca (maio – outubro) A melhor época. Céu limpo, noites frias, trilhas secas. As vistas são espetaculares e o risco de chuva é mínimo. É também o período de maior procura, embora "maior procura" em Choquequirao signifique receber de 20 a 40 visitantes por dia.

Período de transição (abril e novembro) Uma ótima opção. Pode haver chuva ocasionalmente, geralmente à tarde. As paisagens são mais verdes. Menos visitantes e melhores preços.

Estação chuvosa (dezembro a março) Possível, mas com precauções. Chuvas frequentes, trilhas escorregadias, risco de deslizamentos de terra em alguns trechos. A vista pode estar encoberta por nuvens. Não recomendado para caminhantes inexperientes. Fevereiro é o mês mais chuvoso.

 

Flora e Fauna

O caminho para Choquequirao atravessa diversas zonas ecológicas:

Zona superior (2.500 – 3.050 m)

  • Orquídeas selvagens (mais de 100 espécies identificadas)
  • Bromélias
  • samambaias arbóreas
  • begônias andinas

 

Zona intermediária (1.500 – 2.500 m)

  • floresta nublada
  • Árvores Ceibo
  • Amieiros
  • Árvores Pisonay

 

Zona Inferior (1.500 m)

  • Cactos colunares
  • Agaves
  • Vegetação seca em encosta

 

Animais selvagens

  • Condor andino (frequentemente visto pela manhã)
  • Vizcacha (roedor andino)
  • veado-de-cauda-branca
  • Puma (raro, mas presente)
  • Urso-de-óculos (muito raro)
  • Beija-flores (várias espécies)
  • Tangarás e outras aves da floresta nublada

 

Fatos interessantes

  • Choquequirao foi "descoberta" por Hiram Bingham em 1909, dois anos antes de Machu Picchu. Mas o difícil acesso a manteve na obscuridade, enquanto sua irmã se tornou uma maravilha do mundo.
  • O sítio arqueológico é tão grande que um arqueólogo estimou que levaria 50 anos para escavá-lo completamente no ritmo atual.
  • Em 2017, o governo peruano aprovou a construção de um teleférico que reduziria a viagem de dois dias para 15 minutos. O projeto ainda não foi realizado.
  • O nome “Berço de Ouro” não se refere ao ouro literal. Em quéchua, “ouro” (quri/chuqi) também significa “sagrado” ou “precioso”. A tradução mais precisa seria “Berço Sagrado” ou “Berço Precioso”.”
  • As lhamas de pedra só foram descobertas em 2004, durante trabalhos de limpeza da vegetação. Elas estiveram escondidas sob a vegetação rasteira durante séculos.
  • O recorde de visitantes em um único dia é de aproximadamente 80 pessoas, durante um feriado prolongado no Peru. Compare isso com os 5.000 visitantes diários em Machu Picchu.